terça-feira, 14 de outubro de 2014

Entre o rancor e a convicção, Marina opta pelo 'caminho mais fácil'

 

Matheus Pichonelli:

 



Como esperado, Marina Silva, candidata derrotada do PSB à Presidência, decidiu formalizar o seu apoio ao tucano Aécio Neves. O alinhamento acontece quatro meses após dizer que não subiria de jeito nenhum no palanque do PSDB. O partido, diria ela pouco depois, tinha cheiro de derrota no segundo turno.
As reviravoltas dessa eleição já deram sinais de que esta não é uma eleição qualquer. Marina foi alvejada pelo estafe da presidenta Dilma Rousseff ao longo da campanha. Saiu da eleição magoada com a ex-colega de ministério e com o ex-padrinho, o ex-presidente Lula. Seu prêmio de consolação é ajudar a derrotar o grupo no poder, do qual fez parte entre 2002 e 2008. Pois o inimigo, agora, é outro.
Antes de formalizar o apoio, ela tentou obter do candidato tucano uma carta de compromissos, todos genéricos, com a exceção de um: a retirada do projeto de redução da maioridade penal. Conseguiu os genéricos, mas não o específico. Nada que a impedisse de engolir o que declarava até pouco tempo atrás. Entre outros pontos, que era preciso “parar com essa história de querer diluir as diferenças” entre Aécio e Eduardo Campos, morto em um acidente aéreo no meio da campanha. ”Quando alguém fica muito ansioso pra dizer que é igual, é porque sabe que é diferente”, dizia, em entrevista à Folha de S.Paulo.
Segundo ela, Campos protagonizava “uma agenda progressista de respeito aos direitos sociais, de não ir pelo caminho mais fácil de reduzir a maioridade penal e as conquistas sociais”.
Essas diferenças, pelo jeito, já não fazem a menor diferença. É certo que, usar sua propaganda eleitoral para desconstruir sua ex-aliada, o PT sabia que ruía ali qualquer possibilidade de diálogo neste segundo turno.

O erro estratégico é mais um para a conta de uma campanha entre agressiva e desastrosa protagonizada pelo marqueteiro João Santana. Mas Marina, ao se aliar com o candidato do “caminho mais fácil”, segundo suas próprias palavras, mostra que a política, como tudo na vida, é movida pelos rancores, e não pelas convicções. Por isso é tão fácil mudar de lado. Terceira via? Esta é só pra quem não sabe de nada, inocente. https://br.noticias.yahoo.com/blogs/matheus-pichonelli/



 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Dilma defende nordestinos após mensagens ofensivas na internet

Para presidente, quem fala mal 'não sabe quem é o povo nordestino'.

Gilcilene Araújo

DO G1 PI
Dilma em coletiva de imprensa em Teresina (Foto: Gilcilene Araújo/G1)A presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição pelo PT, durante entrevista coletiva em Teresina (PI) (Foto: Gilcilene Araújo/G1)
A presidente Dilma Rousseff defendeu nesta quarta-feira (8) os nordestinos após internautas publicarem em redes sociais mensagens ofensivas contra a população do Nordeste, em razão da quantidade de votos dados à candidata do PT à Presidência. Durante ato em Teresina (PI), a presidente afirmou que existe uma visão "elitista" que prejudica o Nordeste.

"As pessoas que falam mal do Nordeste não conhecem a região. Dizem que aqui as pessoas são desinstruídas. Nunca estiveram aqui, não sabem que o povo nordestino é mais compreensivo e desconhecem a revolução que aconteceu no Nordeste. Vocês têm que superar esta visão porque o Nordeste cresceu muito nos últimos 12 anos", disse a presidente.

Denúncias fizeram com que o Ministério Público Federal do Ceará (MPF-CE) instaurasse procedimento administrativo parainvestigar as mensagens ofensivaspostadas por internautas após o resultado das eleições. De acordo com o MPF-CE, qualquer pessoa pode registrar denúncias.
Os comentários xenofóbicos publicados no Facebook, Twitter e no Tumblr - ferramenta de blog e rede social - associavam os votos de Dilma no Nordeste aos programas sociais, à pobreza e à ignorância dos nordestinos. "Dilma só ganha voto por povo burro do Nordeste", diz um dos posts questionados. Para o MP, os comentários estão caracterizados na Lei n.º 7.716/89, que trata do crime de discriminação ou preconceito de procedência nacional.

Programas do governo
Em Teresina, a presidente saiu em defesa de programas do governo, como o Minha Casa, Minha Vida, Bolsa Família e Mais Médicos. Dilma questionou o fato de adversários na disputa eleitoral prometerem manter os programas desenvolvidos em seu mandato e durante o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A candidata prometeu ampliar o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) e voltou a defender a reforma política. Além disso, afirmou que irá propor mudança na Constituição para que a segurança dos estados passe ser "atribuição" do governo federal.

"É muito engraçado. Meus adversários afirmaram que vão fazer melhor o Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida. Por que não fizeram antes? É a minha pergunta. Por que quando puderam, fizeram o Bolsa Família mirradinho? Eles eram contra o subsidio que demos aos beneficiados do Minha Casa, Minha Vida", argumentou.

O Paradoxo de Gênero na Política Brasileira, artigo de José Eustáquio Diniz Alves
Publicado em outubro 8, 2014 por Redação

[EcoDebate] As mulheres brasileiras monopolizaram a disputa presidencial do Poder Executivo, em 2014, mas continuam com baixa representação nos principais cargos do Poder Legislativo. Esse é um paradoxo de gênero na política institucional brasileira, pois a presença feminina nos espaços de poder ocorre de forma assimétrica. Sem querer entrar nas questões políticas, ideológicas e programáticas das candidaturas, o objetivo desse artigo é tão somente analisar as questões de gênero (em termos binários) envolvidas na inédita disputa presidencial.
Indubitavelmente, as duas últimas eleições presidenciais mostram o empoderamento das mulheres. Entre as nove candidaturas de 2010, as duas mulheres somaram 67,3 milhões de votos (66,3%), sendo 47,7 milhões de votos para Dilma Rousseff (46,9%) e 19,6 milhões para Marina Silva (19,4%). Nas eleições de 5 de outubro de 2014, entre as 11 candidaturas, as três mulheres candidatas ficaram entre os 4 primeiros colocados, sendo que Dilma Rousseff teve 43,3 milhões de votos (41,6%), Marina Silva teve 22,2 milhões de votos (21,3%) e Luciana Genro teve 1,6 milhão de votos (1,6%). No total, as três mulheres somaram 67 milhões de votos, o que representa 64,5% dos votos. Assim, mesmo sem políticas de cotas para os cargos executivos, as mulheres monopolizaram a atenção dos eleitores, com pouco menos de dois terços dos votos. Repetindo, aproximadamente, os mesmos números de 2010
Dilma Rousseff, Marina Silva e Luciana Genro são mulheres que construíram suas carreiras – profissional e política – de maneira autônoma e sem a tutela masculina. Nas eleições de 2014, entre os candidatos mais bem posicionados, eram os homens que contavam com o “capital familiar”: Eduardo Campos, neto de Miguel Arraes e Aécio Neves, neto de Tancredo. As duas mulheres candidatas mais bem colocadas tiveram uma trajetória mais independente e, pode-se dizer, feminista, embora ambas tenham evitado defender explicitamente a agenda feminista. Os programas das duas candidatas deixam a desejar em termos de uma agenda progressista de gênero para o Brasil. Luciana Genro, embora filha do governador do Rio Grande do Sul, Tasso Genro, ela concorre por um partido de oposição e com posições políticas bem diferentes.
Dilma Rousseff é branca, filha de imigrante búlgaro e cresceu na classe média de Belo Horizonte, onde estudou em bons colégios católicos. Na juventude, participou da luta contra a ditadura, da resistência armada, sendo presa e torturada. Formou-se em economia e fez carreira profissional em Porto Alegre e atuou na política no PDT, mas sem nunca disputar cargo político no Legislativo. Casou, teve uma filha e descasou. Entrou no PT pouco antes de assumir o cargo de ministra de Minas e Energia. Foi também ministra da Casa Civil. Ambos cargos no governo Lula.
Marina Silva é negra (lembrando que negro é a soma das categorias preta e parda do IBGE e que a cor parda inclui toda miscigenação) e filha de imigrantes nordestinos pobres que foram para a Amazônia. Seus pais tiveram onze filhos, dos quais apenas oito sobreviveram. Marina trabalhou como empregada doméstica e foi alfabetizada aos 16 anos de idade. Formou-se em História pela Universidade Federal do Acre. Começou sua carreira política militando nas CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) e posteriormente tornou-se evangélica. Participou das lutas sindicais e ambientalistas ao lado de Chico Mendes e foi uma das fundadoras da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Ela casou teve dois filhos, separou, casou de novo e teve mais dois filhos. Em 1988, foi a vereadora mais votada em Rio Branco. Em 1990, foi eleita deputada estadual e, nos anos de 1994 e 2002, foi eleita senadora pelo Acre. Foi ministra do Meio Ambiente no governo Lula.
Luciana Genro, é branca e criada em família de classe média alta de políticos gaúchos, nasceu em Santa Maria, em 17 de janeiro de 1971 é advogada. É filha de Tarso Genro (ex-ministro de Lula e atual governador), neta de Adelmo Simas Genro, membro do antigo PTB e sobrinha do falecido jornalista Adelmo Genro Filho. Foi eleita deputada estadual em 1994, aos 23 anos. Em 2002, foi eleita deputada federal pelo PT. Contudo, entrou em choque com o governo Lula e foi praticamente expulsa do PT. Em 2006, foi reeleita deputada federal, já pelo PSOL, sendo a deputada mais votada na capital Porto Alegre.
Porém, a candidatura presidencial destas três mulheres de forte personalidade ocorreu de forma um tanto quanto circunstancial e não pela força feminina nos seus respectivos partidos. O presidente Lula usou a sua popularidade e influência dentro do PT para fazer indicar Dilma Rousseff (que não tinha história no PT), após o escândalo do mensalão que colocou sobre suspeita as tradicionais lideranças petistas. Mariana Silva, que nunca foi do PSB, só se tornou candidata à Presidência em 2014 devido ao acidente trágico que matou o candidato Eduardo Campos. Luciana Genro se tornou candidata à Presidência, em parte porque não podia ser candidata à deputada federal por ser filha do governador do estado de sua residência eleitoral e o ex-candidato do PSOL nas eleições de 2010 estava se tratando de um câncer, tendo falecido em julho de 2014.
O fato de estas três mulheres, Dilma, Marina e Luciana, terem conseguido 64,5% dos votos válidos em 2014 (disputando com mais 8 homens) foi uma confirmação de que o eleitorado não rechaça as mulheres e pode referendar o sexo feminino quando há boas candidatas no pleito. Os 64,5% dos votos são mais uma pá de cal na tese de que o patriarcalismo domina o comportamento do eleitorado.
Não se trata de considerar as mulheres melhores do que os homens, ou vice e versa. Os problemas do país vão muito além das desigualdades entre homens e mulheres. Mas as questões de gênero importam. Diminuir as desigualdades entre os sexos masculino e feminino é um passo importante no sentido de reduzir outros tipos de iniquidades sociais. Diminuir a exclusão feminina da política é uma condição necessária – mas não suficiente – para se construir uma sociedade mais justa. Mesmo considerando que o conteúdo da campanha eleitoral tenha ficado aquém do desejado, o Brasil dá um exemplo positivo para o mundo ao garantir um segundo turno totalmente feminino na disputa eleitoral para o cargo máximo do Poder Executivo.
É preciso destacar que, pela primeira vez, o TSE divulgou os dados de cor/raça das candidaturas. Entre todos os candidatos (de ambos os sexos) em 2014, houve 54,9% de brancos (no censo 2010 do IBGE as pessoas que se autodeclararam brancas foi 47,7%), 35% de pardos (43,1% no censo 2010), 9,3% de pretos (7,6% no censo 2010), 0,46% de amarelos (1,1% no censo 2010), 0,33% de indígenas, (0,43% no censo 2010). Portanto, as cores/raças menos representadas nas candidaturas foram: amarela, indígena e parda. Sobrerrepresentados estavam: brancos e pretos. Não custa lembrar que a população indígena sofreu um genocídio nos primeiros 300 anos da história do Brasil, sendo hoje o grupo populacional em pior condição social e o mais excluído da política e dos espaços de poder.
As pesquisas de intenção de voto à Presidência da República estão mostrando que o eleitorado negro vota proporcionalmente mais em uma candidata branca (Dilma Rousseff) e o eleitorado branco vota proporcionalmente mais em Aécio Neves. Pesquisa IBOPE realizada entre 29/09 a 01/10/2014, mostra a candidata Dilma Rousseff com 37% das intenções de voto no primeiro turno em todo o eleitorado brasileiro, Marina Silva com 24% e Aécio Neves com 19%. Em relação à variável “raça”/cor, Dilma Rousseff tinha 45% das intenções de voto da população negra (preta+parda) e 33% da população branca, enquanto Marina Silva tinha 24% das intenções de voto da população branca e 23% da população negra e Aécio Neves tinha 26% no eleitorado branco e somente 13% no eleitorado negro. Ou seja, Dilma ganharia na população negra, Marina ficaria empatada, Aécio e Luciana Genro ganhariam na população branca.
Porém, a despeito das conquistas das mulheres na disputa da Presidência da República, a exclusão feminina (também a exclusão negra e principalmente indígena) continua no Legislativo. O eleitorado é o mesmo, não se tratando portanto, de considerar o eleitor machista ou patriarcal. Como veremos, a explicação para a baixa representação feminina no parlamento não se deve ao sexismo dos/as eleitores/as, mas devido a dois motivos: 1) o tipo de sistema político/eleitoral do país e a forma como foi redigida a política de cotas; 2) a permanência de práticas misóginas dos partidos políticos que, monopolizados pelos homens, centralizam o poder partidário e a distribuição dos recursos das campanhas.
Fazendo um breve histórico da política de cotas de gênero no Brasil, tem-se como marco a decisão do Congresso Nacional – logo após a 4ª Conferência Mundial das Mulheres ocorrida em Beijing – em adotar uma política de cotas para tentar reverter a exclusão das mulheres brasileiras da política parlamentar. A Lei 9.100 de 29 de setembro de 1995, no § 3º do artigo 11º estabelecia o seguinte:
“Vinte por cento, no mínimo, das vagas de cada partido ou coligação deverão ser preenchidas por candidaturas de mulheres”.
Porém, o número candidaturas subiram de 100% para 150% do número de vagas a preencher pelos partidos, significando que houve possibilidade de aumento das candidaturas masculinas. E o pior, o partido era obrigado a reservar os 20% das vagas (posteriormente passou para 30%), mas não era obrigado a preenchê-las.
Dois anos depois houve a aprovação de uma nova Lei eleitoral. O parágrafo terceiro do artigo 10º da Lei 9.504, de 30 de setembro de 1997 ficou assim redigido:
Do número de vagas resultantes das regras previstas neste artigo, cada partido ou coligação deverá reservar o mínimo de trinta por cento e o máximo de setenta por cento para candidaturas de cada sexo”.
A nova redação da política de cota possibilitou contornar os questionamentos da inconstitucionalidade do mecanismo anterior e deu um caráter mais universalista à política de cotas, dando o mesmo tratamento para os dois sexos. A nova ação afirmativa garantiu o respeito ao princípio “todos são iguais perante a lei” e apenas estabeleceu regras de representação, ou seja, um mínimo de 30% e um máximo de 70% para cada sexo.
Porém, assim como na Lei 9100, a nova redação não garantiu o preenchimento das candidaturas femininas. Os partidos reservavam o piso dos 30% para as mulheres e respeitavam o teto de 70% para os homens, mas não preenchiam as vagas femininas. Na prática, a exclusão feminina continuou, pois os partidos políticos continuaram com suas práticas excludentes, mantendo a desigualdade de gênero nas disputas eleitorais.
Para forçar os partidos a respeitarem o espírito da Lei de Cotas visando aumentar o número de mulheres candidatas e aumentar a equidade de gênero nas listas de candidaturas, e após ampla pressão dos setores progressistas da sociedade, houve uma nova mudança na legislação. Na Lei 12.034, de 29/09/2009, a nova redação da política de cotas ficou assim redigida:
“Do número de vagas resultante das regras previstas neste artigo, cada partido ou coligação preencherá o mínimo de 30% (trinta por cento) e o máximo de 70% (setenta por cento) para candidaturas de cada sexo”.
A alteração pode parecer pequena, mas a mudança do verbo “reservar” para “preencher” significou uma mudança no sentido de forçar os partidos a presença das mulheres nas nominatas eleitorais. O ideal é que fosse garantido a paridade de gênero (50% para cada sexo) nas listas de candidaturas. Mas a mudança na redação da lei representou uma oportunidade, mesmo que limitada. A aplicação da Lei 12.034/2009 garantiu o aumento do número de candidaturas femininas nas eleições de 2010, 2012 e 2014.
Um dos resultados da política de cotas foi demonstrar que o déficit de gênero no Legislativo não se deve à falta de mulheres dispostas a participar da corrida eleitoral, como querem fazer crer algumas lideranças partidárias masculinas. O ano de 2014, por exemplo, bateu todos os recordes de candidaturas femininas. Para a eleição da Câmara de Deputados e das Assembleias Legislativas as nominatas dos partidos ficaram acima do piso dos 30% da política de cotas. Dados do TSE, de 08 de setembro de 2014, mostram que no total havia 18.018 homens candidatos (69%) nas eleições gerais de 2014 e 8.122 mulheres (31%). Houve um avanço expressivo no número de mulheres candidatas que eram somente 786 (7%), em 1994. Houve crescimento de 10 vezes entre 1994 e 2014. Neste sentido, a política de cotas cumpriu seus objetivos de aumentar as candidaturas femininas.
Porém, muitas agremiações completaram a lista com candidatas laranjas e, em 2014 como nos anos anteriores, o percentual de mulheres aptas na disputa ficou abaixo do estipulado nas cotas de gênero, sendo 16.348 homens (71,3%) e 6.581 mulheres (28,7%) candidaturas homologadas pelo TSE (em 08/09/2014). Para Deputado Federal havia, no total das pessoas inscritas, 4.867 homens (68,2%) e 2.272 mulheres (31,8%). Para Deputado Estadual (+ Distrital) havia 12.363 homens (68,6%) e 5.650 mulheres (31,4%). Mas considerando as candidaturas aptas, havia para Deputado Federal 4.383 homens (70,9%) e 1.799 mulheres (29,1%) e para Deputado Estadual (+ Distrital) 11.262 homens (71%) e 4.619 mulheres (29%). Contudo, mesmo considerando que as candidaturas aptas ficaram pouco abaixo da cota de gênero, houve um número recorde de mulheres candidatas em 2014. Não faltaram mulheres candidatas, mas sim, falta apoio dos partidos para as candidaturas femininas ao parlamento.
O resultado das urnas de 05 de outubro mostrou que as mulheres tiveram um desempenho “razoável” para o Senado (mesmo não havendo política de cotas para esta instância). Foram eleitas 5 senadoras em 27 Unidades da Federação, o que representa 18,5% das vagas.
Mas para a Câmara Federal prevaleceu o déficit democrático de gênero e o número de mulheres eleitas ficou aproximadamente o mesmo das últimas duas eleições (ainda não temos os dados definitivos do TSE). Desta forma, o Brasil vai continuar no bloco da lanterninha da representar parlamentar mundial.
Segundo a Inter-Parliamentary Union (IPU), as mulheres mundiais ultrapassaram 22% de participação na Câmara dos Deputados ou em Parlamentos Unicamerais (Lower ou Single House). Todavia, a participação feminina no Brasil permaneceu abaixo de 9% e a diferença entre as taxas brasileiras e mundiais nunca foi tão alta (13,5%), como em 2014. Isto quer dizer que as mulheres brasileiras estão perdendo posição relativa em relação às demais mulheres dos diversos países. No ranking da IPU, os países que possuem a mesma taxa de participação feminina aparecem empatados com o mesmo número de classificação. Desta forma o Brasil estava em 71º lugar em 01 de janeiro de 1997 e em 125º lugar em 01 de fevereiro de 2014. Contudo, no ranking global (considerando quantos países estavam na frente) o Brasil aparecia em 103º lugar em janeiro de 1997 e em 159º lugar em setembro de 2014.
A política parlamentar é uma das áreas em que as mulheres ainda não conseguiram reduzir ou reverter as desigualdades de gênero. Nas demais áreas os avanços foram expressivos.
As mulheres brasileiras possuem menores taxas de mortalidade e vivem mais tempo do que os homens. Em 2012, houve 152.013 óbitos por causas externas, sendo 125.253 homens (82,4%) e 26.606 mulheres (17,6%). Desde 1940 as mulheres são maioria dos habitantes do Brasil e, devido à sobremortalidade masculina por causas violentas, a cada ano aumenta o superávit feminino na população total do país. Em 1932 elas conquistaram o direito de voto e se tornaram maioria do eleitorado a partir de 1998. A cada nova eleição aumenta o superávit feminino no eleitorado. As mulheres entraram em massa em todos os níveis educacionais e já superam os homens em todos os níveis de ensino, incluindo mestrado e doutorado. Cresceu a participação feminina no mercado de trabalho e houve redução do hiato ocupacional e salarial. Obtiveram diversas vitórias na legislação nacional e o reconhecimento constitucional de direitos iguais entre os sexos. São maioria nos beneficiários do Programa Bolsa Família e dos beneficiários da Previdência Social. Nas duas últimas olimpíadas (Pequim, 2008 e Londres, 2012) conquistaram 2 das 3 medalhas de ouro trazidas ao Brasil. Ou seja, passaram do status de excluídas das Olimpíadas até 1932, para líderes desses esportes no século XXI.
Assim, as mulheres avançaram em muitas frentes e chegaram ao comando do posto máximo da República em 2010. Fato não ocorrido, por exemplo, nos Estados Unidos e França, países com grande tradição democrática. O grande atraso nas relações de gênero no Brasil ocorre, portanto, na política parlamentar. Segundo Rosin: “Patriarchy is crumbling. We are reaching the end of 200,000 years of human history and the beginning of a new era in which women, and womanly skills and traits, are on the rise”. O enfraquecimento do patriarcalismo ocorre também no Brasil, embora existam algumas áreas ainda atrasadas no processo de inclusão feminina.
Para resolver o paradoxo de gênero na política é preciso uma reforma política e um processo de democratização dos partidos. É preciso estabelecer a paridade de gênero em todos os cargos de poder dentro das agremiações políticas e democratizar a vida política para todos os segmentos excluídos. Só assim o Brasil poderá ser, verdadeiramente, uma sociedade próspera e justa.
Referências:
ALVES, JED. Mulheres brasileiras perdem posição relativa na política mundial, IPG, SP, 28/04/2012
ALVES, JED. O envelhecimento do eleitorado brasileiro, Portal do Envelhecimento, SP, 24/06/2014
ALVES, JED. As eleições de 2014 e o poder das balzaquianas, Ecodebate, RJ, 27/08/2014
ALVES, JED. Candidata negra tem maior apoio de brancos e candidata branca tem maior apoio de negros, Patricia Galvão, SP, 14/09/2014
ALVES, JED, PINTO, CRJ, JORDÃO, F. (orgs). Mulheres nas eleições 2010. ABCP/SPM, SP, 2012, 520 p.
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Publicado no Portal EcoDebate, 08/10/2014


terça-feira, 7 de outubro de 2014

O elitismo incurável de FHC, artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)

Publicado em outubro 7, 2014 por Redação

[EcoDebate] Fernando Henrique já disse que o PT cresceu nos grotões por falta de informação do povo (UOL, 06/102014). Com isso referia-se certamente em grande parte ao Nordeste brasileiro, principalmente o Semiárido.
Eu tinha jurado a mim mesmo que não daria uma única palavra sobre eleições nesse segundo turno, mas uma afirmação como essa é muito mais que um palpite eleitoral. É na verdade a hedionda visão sudestina sobre o Nordeste.
A arrogância é sempre má conselheira. Seria bom que todos nos perguntássemos qual a “agulha” que ele como presidente investiu na região. Em seu tempo foi realizado um dos melhores estudos sobre o Semiárido, ainda que numa lógica tecnicista, chamado de ARIDAS. Entretanto, quedou-se nas gavetas ou nos discos rígidos dos computadores. Ainda por cima tivemos o apagão energético da CHESF, quando quase todo sistema faliu por absoluto descuido com o São Francisco e outras demandas energéticas
Além do mais, o Semiárido mudou para melhor. Talvez aqui esteja a verdadeira razão do crescimento do PT, embora discordemos de tantas obras faraônicas e para atendimento do capital. Na verdade não foi só o Bolsa Família, ou o aumento do salário mínimo – que no tempo dele valia 60 dólares em contraste com os 300 dólares atuais -, mas também a expansão do abastecimento de água, além de todo apoio dos governos petistas à lógica da convivência com o Semiárido. Assim multiplicaram-se as cisternas para beber, para produzir, a agricultura ecológica, a criação de animais adaptados, numa lista quase infinda de iniciativas da sociedade civil que teve apoio governamental. Mesmo que não publique – por causa de nossas críticas à transposição do São Francisco – o governo tem expandido também as adutoras para muitas cidades do Semiárido. Os desgostos com o PT são muitos e graves, mas não há como negar que houve preocupação com a região.
Ainda mais, nunca a região esteve tão bem informada como nos últimos anos. Expandiu-se a energia elétrica – no tempo dele ainda líamos à luz de vela e lampião na esmagadora maioria das comunidades rurais – e com ela o uso de eletrodomésticos, a internet e os celulares.
Num debate sobre a implantação de uma usina nuclear em Itacuruba, Pernambuco – outro desgosto do governo Dilma encampado por Eduardo Campos – a juventude presente num debate citava os acontecimentos de Fukushima e convocava uma manifestação contrária à obra por torpedos e WhatsApp.
Esses dias, num momento de formação com a juventude do meio rural de Casa Nova e Remanso, Bahia, chamava a atenção que todos sabiam ler e escrever, todos tinham celulares, se comunicavam através das redes sociais, elaboraram um site para registrar seus avanços. Mesmo morando no meio rural, pelo menos a metade tinha acesso diário à internet.
Há poucos tempos atrás seus pais nem sequer sabiam ler. Todas nossas reuniões de formação eram feitas por técnicas de oralidade, como cordéis e músicas facilmente aprendíveis. Eles já tinham sim uma leitura de mundo, mas não tinham a leitura da palavra.
Sim, nessa última grande estiagem, não houve mortalidade humana, nem mesmo a infantil.
Então, o mundo daqui anda bem informado ultimamente. O povo do Semiárido tem razões objetivas para fazer suas escolhas. Parece que o único desinformado é o próprio FHC.
Aliás, depois de uma afirmação como essa, como Aécio ainda poderá pedir os votos dos nordestinos?
Roberto Malvezzi (Gogó), Articulista do Portal EcoDebate, possui formação em Filosofia, Teologia e Estudos Sociais. Atua na Equipe CPP/CPT do São Francisco.


Publicado no Portal EcoDebate, 07/10/2014

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Com uma “Volta Ao Mundo” Desfile 7 de Setembro Reúne Milhares de Pessoas em Xinguara

O tradicional Desfile Cívico de sete de Setembro,  levou às ruas e avenidas de Xinguara uma multidão que foi prestigiar o ato cívico. Ao todoquinzeescolas do município participaram do evento que este ano teve como tema “Uma Volta Ao Mundo”. O prefeito, Osvaldinho Assunção, o presidente da Câmara Municipal, Dito do Cinema, vereadorese secretários municipais assistiram as apresentações em um palco montado na Praça Vitória Régia.
No pelotão de frente desfilou a Escola Municipal Betel, a escola apresentoua cultura indiana, com sua riqueza e mistérios. Trazendo também os monumentos históricos como o Taj Mahal, Flor de Lotus e Estátua de Xivas.“Os alunos se dedicaram para apresentar o melhor, superamos nosso desafio e conseguimos trazer para as ruas um pouco dessa cultura que é uma das mais antigas do mundo” disse Esli Oliveira, diretora da escola.
A Banda Marcial da Escola MunicipalJair Ribeiro Campos esteve à frente do primeiro pelotão, o desfile contou ainda com a participação das fanfarras dos alunos do Mais Educação, Igreja Adventista do Sétimo Dia: Clube dos Desbravadores, da Casa da Cultura e da Escola Municipal Pe. João Luiz Purguy.
As escolas municipais Ciranda Cirandinha, Dom Luiz de Palha e José Antão apresentaram as fantasias e o fantástico mundo das crianças com direito a uma viagem encantada à Disney.  As culturas japonesa, americana, italiana, africana e a brasileira foram lembradas. 
Os alunos da Escola Raimundo Henrique de Miranda mostraramas riquezas da região nordestina, com os seus ritmos, literatura, esporte assim como seus políticos que se destacam no cenário nacional.As sete maravilhas do mundo foram apresentadas pela escola Henrique Francisco Ramos, o7 de Setembro em Xinguara teve ainda solidariedade, a ONG Direito de Viver, que abraça a luta no combate ao câncer, desfilou com a Escola Municipal Jader Barbalho.
“Todas as escolas estão de parabéns, é gratificante acompanhar a dedicação e o compromisso de todos com o atocívico, o resultado não poderia ser outro senão o sucesso, o desfile desse domingo foi um dos maiores e mais bem organizados de Xinguara” disse Vilmones da Silva, secretário e educação.

O público presente também aprovou as apresentações, seu Elizeu chegou cedinho à Praça Vitória Régia para ter um lugar privilegiado para assistir a passagem das escolas. “Trouxe meus filhos e a esposa e estamos achando tudo muito bonito e bem organizado. Todos os anos participamos, mas percebemos que esse ano há uma maior participação das escolas, nos presenteando com uma bela apresentação” disse o comerciante.
Zonas Rurais
A data também foi lembrada pelas escolas municipais das zonas rurais, o Distrito São Francisco pela primeira vez realizou o desfile de 7 de setembro em homenagem à Independência do Brasil, o evento aconteceu na tarde da quarta-feira (3), Na sexta-feira (5), foi a vez dos alunos da Escola Municipal São José, localizada no Distrito São José ir às ruas demonstrar o amor à pátria; no sábado os alunos da Escola Municipal Padre João Luiz Purguy, realizaram o desfile cívico no Distrito Rio Vermelho. Mayrla Lima/Ascom



sexta-feira, 27 de junho de 2014

Vírus da pólio é encontrado em esgoto de Viracopos, São Paulo diz OMS
Amostra coletada em março é similar à de vírus recentemente isolada de um caso na Guiné Equatorial
O vírus da poliomielite, doença erradicada no Brasil há 25 anos, foi encontrado em uma amostra de esgoto em Campinas, no interior do Estado de São Paulo, segundo informe divulgado nesta segunda-feira, 23, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), agência das Nações Unidas.
Embora o vírus tenha sido encontrado em solo brasileiro, não foi registrado até o momento nenhum caso da doença em humanos no País e o risco de transmissão é muito baixo, de acordo com a entidade.
O vírus da pólio foi identificado em amostras coletadas no último mês de março no esgoto do Aeroporto Internacional de Viracopos. Segundo a OMS, ele é similar a um micro-organismo recentemente isolado de um caso de poliomielite na Guiné Equatorial, na África Ocidental, um dos países que ainda registram casos da doença.
O Ministério da Saúde descartou a possibilidade de disseminação de poliomielite e classificou o episódio como um “achado eventual”.
O secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Jarbas Barbosa, disse que foi o governo brasileiro que notificou a OMS sobre o vírus, encontrado durante um exame de rotina realizado pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). Ele reforçou que o vírus é semelhante ao encontrado na Guiné Equatorial e que provavelmente veio de lá.
“A Cetesb repetiu os mesmos exames em abril e todas as amostras foram negativas, até mesmo as de Viracopos, o que confirma que se tratou de algo eventual, provavelmente de um viajante, não sabemos se um passageiro ou tripulante”, disse o secretário.
A análise rotineira de amostras de esgoto faz parte da estratégia das autoridades sanitárias brasileiras para prevenir a disseminação do vírus.
No Estado de São Paulo, a Cetesb é responsável por esse monitoramento, que é realizado em dez pontos, entre eles os três principais aeroportos de São Paulo (Viracopos, Cumbica e Congonhas), os terminais rodoviários do Tietê e da Barra Funda, ambos na capital paulista, e em um estaleiro do Porto de Santos. As análises são realizadas desde 1999.
Em seu informe, a OMS afirmou que “o vírus só foi detectado no esgoto” e, até o momento, “nenhum caso de paralisia por pólio foi registrado”. 
Barbosa destaca que, além de o caso ter sido eventual, a cobertura por vacina no País contra a doença é de cerca de 99%. A última campanha nacional de imunização contra a doença no Brasil foi realizada há um ano, e a cobertura no Estado de São Paulo superou 95%, segundo a OMS. Para a organização, “a elevada imunidade parece ter evitado a transmissão”.
Risco. A agência da ONU disse que o risco de o vírus da poliomielite encontrado no Brasil se espalhar internacionalmente é “muito baixo”. Na Guiné Equatorial, porém, o risco é “alto”, de acordo com a entidade.
A Secretaria Estadual da Saúde informou que foi notificada sobre o achado da Cetesb, mas que ele não altera em nada a condição de erradicação que a doença tem no Estado de São Paulo e em todo o País.
Doença. A poliomielite ataca o sistema nervoso e pode causar paralisia irreversível em questão de horas. Não há cura para a doença, que pode ser evitada com vacinação.
A pólio é considerada erradicada do Brasil desde 1989 e o continente americano foi declarado livre da doença em 1991, de acordo com a OMS, que mantém uma campanha mundial para erradicar a ocorrência de novos casos.
Embora tenha sido eliminada em muitos países, a poliomielite foi tema de uma Declaração de Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional no mês passado. 
Na ocasião, a entidade colocou em alerta dez países com risco potencial de exportação do vírus: Afeganistão, Camarões, Etiópia, Guiné Equatorial, Iraque, Israel, Nigéria, Paquistão, Síria e Somália.
Segundo a OMS, até o dia 11 de junho, foram registrados 94 casos de pólio no mundo. / FABIANA CAMBRICOLI COM REUTERS