terça-feira, 22 de novembro de 2016

Governo federal quer diminuir Floresta Nacional do Jamanxim para menos da metade da área atual



O Ministério Público Federal (MPF) pediu à Justiça que impeça o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) de mudar os limites da Floresta Nacional (Flona) do Jamanxim, em Novo Progresso, no sudoeste do Pará, sem estudos técnicos e sem concordância da sociedade. O ICMBio tem projeto para reduzir a área da Flona dos atuais 1,3 milhão de hectares para 561 mil hectares, menos da metade de sua área original.
A ação foi encaminhada à Justiça Federal em Itaituba (PA) na última quinta-feira, 10 de novembro. O objetivo do MPF é que a Justiça suspenda imediatamente o trâmite de qualquer procedimento administrativo ou requerimento que tenha por objeto a recategorização, diminuição ou desafetação da floresta.
O ICMBio quer criar uma Área de Proteção Ambiental (APA), que admite maior intervenção humana do que uma Floresta Nacional, e quer ampliar os limites do Parque Rio Novo, incorporando ao parque parte da área da Flona do Jamanxim.
“Área de Proteção Ambiental é a que mais admite a intervenção humana”, destaca na ação a procuradora da República Janaina Andrade de Sousa. “O restante do espaço será destinado aos pecuaristas que pressionam o poder público desde a criação da floresta em 2006”, alerta.
A recategorização de áreas da Flona poderia permitir a instalação de obras de infraestrutura e a ocupação de áreas que antes podiam apenas receber visitação, cenário que preocupa o MPF especialmente porque a região já sofre com alta pressão de desmatamento, situação fundiária não regularizada, grilagem e garimpo.
Para o MPF, após a criação da Flona Jamanxim, qualquer intervenção na demarcação ou mudança de categoria requer ampla discussão com todos os setores envolvidos direta ou indiretamente na causa, incluindo a participação efetiva e plural da sociedade civil.
Processo nº 0001990-15.2016.4.01.3908 – Vara Única da Justiça Federal em Itaituba (PA)

Fonte: Ministério Público Federal no Pará
Brasil precisa de uma Crítica da Aceleração Cínica

O cinismo no Brasil virou um atropelo. Uma disparada. Uma manada de cínicos tomou o Planalto, referendada por cínicos de toga e por multidões de cínicos políticos
Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O filósofo alemão Peter Sloterdijk escreveu sua “Critica da Razão Cínica” em 1983. Mais de 30 anos depois, podemos usar o mote para pensar na extensão do cinismo em terras brasileiras, nestes tempos recentes. A ética das conveniências – uma ética às avessas, portanto – tem sido invocada por atores políticos de diversos matizes. Particularmente pelos que pretendem preservar o estado atual das coisas. Como os cínicos descritos pelo alemão.
Não falo dos cínicos originais, claro. Como o grego Diógenes, aquele da Lanterna. Assim como outros termos (“prudência”, por exemplo), a palavra cinismo foi ganhando, ao longo dos séculos, um contorno oposto. De uma postura libertária, provocativa, contestadora, iconoclasta, foi aos poucos se tornando isso o que está aí – uma palavra em sintonia com as práticas cotidianas da burguesia. Ligada a um fingimento – mas um fingimento conservador, quase violento. 
Sloterdijk fala de cinismo na imprensa, na universidade, na religião. Até no sexo. Fala de cinismos. E, claro, fala de cinismo na política. Seria desnecessário enumerar todos os casos recentes na história do Brasil. Estão bem à vista. Basta olhar para a TV e vislumbrar a face do ministro Geddel Vieira Lima. Ou relembrar os momentos pouco grandiosos da entrevista do presidente Michel Temer a vendedores de secos e molhados no Roda Viva, da TV Cultura, na última segunda-feira.
O que estou questionando aqui é a súbita aceleração. O cinismo no Brasil virou um atropelo. Uma disparada. Uma manada de cínicos tomou o Planalto, referendada por cínicos de toga (cínicos clássicos, cheios de mesura), e por multidões de cínicos políticos, antes incomodadíssimos com a corrupção-do-PT e agora um tanto distraídos em relação a acusações que envolvam o presidente-poeta, seus ministros ou tucanos de altas plumas.
Lembram-se daquele cinismo do futebol? Aquele cinismo quase saudável, que a gente exercita quando defende somente o nosso time, maldiz as decisões estapafúrdias apenas do juiz que nos prejudicou? Pois bem, agora vivemos um estado de 90 minutos vezes 90 minutos de cinismo: o cronômetro simplesmente não parou, e aqueles músculos nos cantos da boca ficaram meio que congelados. Com isso passamos a defender – nas redes sociais e nas ruas – posições que sabíamos ser indefensáveis.
Por cinismo explícito. Por ampla gama de falta de informações. Por ingenuidade ou por oportunismo, tudo junto. Mas no máximo a partir de um caleidoscópio ambulante que corre a partir de pernas cínicas. As pessoas que comemoram a saída de médicos cubanos talvez se refiram de modo condoído à morte de brasileiros pobres nos rincões do país. E talvez sejam as mesmas que acham graça na cena de um ex-governador sendo preso em pleno hospital, em plena maca.
Esse caleidoscópio cínico move-se rapidamente a partir de um simulacro de verde-e-amarelo rumo a uma imensa mancha preta – mas preta de fascismo. Misto de entropia e buraco negro. A luz no fim do túnel apenas ofusca – ou serve de flash para nosso exercício diário de disparar sorrisos (em meio a selfies paralisantes) enquanto os esboços de coesão social se esfacelam. O pacto coletivo possível simplesmente se esboroa. A crise está à vista. Sim, ela é econômica. E é política. E é cínica. Não olhem agora, mas ela já nos engoliu.

Na 2ª Conferência Livre da Estatuinte Unifesspa, a comunidade universitária e membros da sociedade civil focaram os diálogos sobre a discussão dos princípios filosóficos, político-pedagógicos e metodológicos que devem nortear a Unifesspa nos próximos anos. Com o eixo temático “Organização didático-científica” foram discutidos, entre outros pontos, a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, com foco da Instituição no seu contexto regional e na defesa da multiculturalidade.
Participaram da mesa redonda, realizada na manhã da ultima quinta-feira (17), no auditório da Unidade I do Campus de Marabá, a professora do IFPA, Campus Rural de Marabá, professora Suely Ferreira; a educadora Kaigang e coordenadora do setor de Educação Escolar Indígena na 4ª URE, Rosani Fernandes; e os estudantes Fabiano Júnior da Silva e Carlos Gabriel. A mesa foi mediada pela professora Hildete Pereira, representante docente na Comissão Organizadora Estatuinte.
“Hoje nós somos mais de 10 mil indígenas fazendo cursos de graduação e pós-graduação e a universidade precisa repensar a sua estrutura atendendo a essa realidade. Nós entendemos que o ensino superior é uma ponte não apenas para nos levar a um canudo, mas sim a possibilidade para ter conhecimento e dialogar com os não indígenas, em defesas dos nossos direitos”, afirmou a educadora Kaigang, Rosani Fernandes.
A professora do IFPA, Suely Ferreira ressaltou a importância de uma transformação na Universidade para além de seu documento escrito, o estatuto. “A gente sabe que o Estatuto sozinho não dá conta dessa transformação que necessitamos. É preciso o debate constante para a prática e a revisão das posturas no contexto da universidade”, enfatizou.
Os estudantes Fabiano Júnior da Silva e Carlos Gabriel também conduziram suas falas ressaltando a importância de construir uma universidade plural e que atenda aos diversos segmentos da Instituição. “Sonho com uma universidade menos burocratizada e com mais diálogo, que seja representativa e inclusiva”, afirmou Carlos Gabriel.
Fabiano Júnior ressaltou o slogan da Estatuinte que simboliza a proposta concreta para a construção da Universidade. “Participar é construir, diz o slogan e é dessa forma que vamos construindo nossa história, nosso futuro, no debate dia a dia”, afirmou Fabiano Júnior.
Após as palestras, foi aberto o debate com intensa participação do público presente. As falas e debates discutidas nas conferências livres estão sendo sistematiza pela Comissão Organizadora durante os grupos de trabalhos.  À tarde, acontecem os grupos de trabalhos nas salas 20, 21 e 22 do prédio de Direito, a partir das 14h.
Todas as atividades das conferências livres estão sendo transmitidas, ao vivo, pela internet por meio da Rede Nacional de Pesquisa (RNP), pelo link https://conferenciaweb.rnp.br/webconf/unifesspa-eventos; e também pelo Facebook: estatuinte.unifesspa.oficial.  Todas as informações sobre o processo estatuinte estão disponíveis no site estatuinte.unifesspa.edu.br. 


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

O Fim Da Mobilidade Social Ascendente.
Artigo De José Eustáquio Diniz Alves

[EcoDebate] As economias avançadas são aquelas que apresentaram grande crescimento econômico no século XX. Estas economias de alta renda viabilizaram um processo de mobilidade social ascendente, com cada nova geração ficando mais rica e com melhores indicadores de desenvolvimento humano do que as gerações precedentes.
A maioria das pessoas que cresceram em economias avançadas desde a Segunda Guerra Mundial passaram a ter uma vida melhor do que a de seus pais. Com exceção de um breve hiato na década de 1970, o dinamismo do crescimento econômico e a melhora do nível de emprego possibilitaram que a maioria das famílias experimentassem aumento dos rendimentos, tanto antes como depois dos impostos e transferências. Ainda recentemente, entre 1993 e 2005, 98% das famílias, em 25 economias avançadas, tiveram aumento da renda real, segundo estudo da McKinsey Global Institute.
Mas o quadro mudou no século XXI. Os rendimentos reais de cerca de dois terços das famílias nas 25 economias avançadas do estudo ficaram estáveis ??ou caíram entre 2005 e 2014. O relatório da McKinsey constata que, entre 2005 e 2014, os rendimentos reais nessas mesmas economias avançadas ficaram estáveis ??ou caíram para 65 a 70% das famílias, ou mais de 540 milhões de pessoas. E depois das transferências governamentais e com menores taxas e impostos a situação foi atenuada, mas assim mesmo até um quarto de todas as famílias teve a renda estagnada ou em declínio na década.
Estes resultados fornecem uma nova perspectiva para o debate sobre a desigualdade de renda que vem preocupando os políticos das economias avançadas. O relatório da McKinsey detalha o aumento acentuado na proporção de agregados familiares e grupos de renda que simplesmente não estão avançando, fenômeno que afeta pessoas em todas as esferas da distribuição de renda. E os mais atingidos são os jovens, os trabalhadores menos instruídos, levantando o espectro de uma “geração perdida”, que está crescendo mais pobres do que seus pais.
O impacto econômico e social desta situação é potencialmente corrosivo. As pessoas cujos rendimentos não estão avançando estão perdendo a fé em aspectos do sistema econômico global. Quase um terço daqueles que não estão avançando disseram a situação pode ser ainda pior com seus filhos. Isto gera ansiedade, raiva e opiniões negativas sobre o livre comércio e a imigração.
Se o baixo crescimento econômico da última década continuar agravando o quadro de estagnação secular, a proporção de domicílios em segmentos de renda constante ou em declínio poderia subir tão alto quanto 70 a 80% do total de famílias, durante a próxima década.
Este quadro reforça situações como a do Brexit e o crescimento de líderes populistas e o avanço do bairrismo e da xenofobia. O empobrecimento de amplos setores das economias avançadas também afeta as economias do Terceiro Mundo e dificulta o caminho para a erradicação da pobreza e a melhoria da qualidade de vida global. Talvez com a exceção de alguns países do leste asiático, poderá ser também o fim da mobilidade social ascendente entre os países.
Referência:
Richard Dobbs et. al. Poorer than their parents? A new perspective on income inequality, McKinsey Global Institute, july 2016

 José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br


in EcoDebate, 04/11/2016

terça-feira, 1 de novembro de 2016

POR: 
REDAÇÃO http://outraspalavras.net/

Novo livro sugere: fenômeno não é distúrbio psíquico. Quem o pratica reproduz, na vida privada, as lógicas de competição violenta da sociedade em que estamos mergulhados
Por Mark Karlin, no Truthout | Tradução: Inês Castilho
O que causa bullying em países como os Estados Unidos? Em Bully Nation – How the American Establishment Creates a Bullying Society  (“Como o Establishment Americano Cria uma Sociedade de Ameaças”, em tradução livre), Charles Derber e Yale R. Magrass mostram como a desigualdade de poder, o militarismo e o capitalismo agressivo dos EUA tornam prosaico este tipo de prática, tanto no plano individual quanto no institucional.
Frequentemente aborda-se o bullying de uma perspectiva individual. Por exemplo, alguém pode começar uma campanha para acabar com o bullying nas escolas. O subtítulo do seu livro, contudo, indica que ofenômeno não pode ser visto isoladamente. Como vocês vieram a enxergar isso como um problema cultural sistêmico?
Charles Derber and Yale R. Magrass: O bullying éuma forma de controlar as pessoas, de colocá-las em “seu lugar”. Talvez existahá tanto tempo quanto há vida humana. Até cerca devinte anos atrás era desdenhado como “normal”, um rito de passagem que crianças e adolescentes devem passar e “superar”. Algumas pessoas sofremrelativamente pouco – talvez sejam eles próprios agressores – e o bullying produz neles pouco impacto, a longo prazo. Para outros, é um trauma que deixa cicatrizes por toda a vida.

Em sua maior parte, a narrativa sobre o bullying tem sidofeita por psicólogos, que o veem como um problema para indivíduos que necessitam de terapia. Precisamos, porém, averiguar porque ele é tão enraizado; será que pessoas e instituições poderosas têm interesse em promovê-lo e perpetuá-lo?
Vivemos num capitalismo militarizado. Capitalismo supõe competição – vencedores e perdedores. Militarismo requer violência, agressão e submissão à autoridade. O bullying constrói exatamente essas características. A psicologia é inadequada para compreender sua causa e força. Ela não tem um conceito de poder, procura estudar indivíduos mudando suas atitudes. A sociologia e a política são muito melhores para entender o poder. Wright Mills, um sociólogo dos anos 1950, discorreu sobre a “imaginação sociológica”. Argumenta que não se pode separar “problemas individuais” de “questões públicas”. Precisamos da imaginação sociológica para entender o bullying. Como as crianças são educadas para fundir-se com o capitalismo militarizado? Que tipo de sistema educacional é necessário para este sistema? Como autoridades educacionais encorajam uma cultura estudantil que prepara para o capitalismo militarizado e vê o bullying como parte “normal” da vida?
Estou intrigado por duas expressões do livro: “capitalismo militarizado” e “bullying do capital”. Vocês podem explicar a diferença?

Nem todas as sociedades capitalistas são militarizadas (pense na Costa Rica ou na Suécia), e nem todas as sociedades militarizadas são capitalistas (pense na Rússia ou na Arábia Saudita). Nós às vezes esquecemos isso, porque os EUA combinaram muito sutilmente o militarismo e o capitalismo, criando o “capitalismo militarizado”. O militarismo é, intrinsecamente, uma força ameaçadora; por seu lado o capitalismo é também um sistema muito ameaçador. Todos os Estados militarizados, até mesmo aqueles não capitalistas, são intimidadores. E o mesmo é verdade para estados capitalistas que não são militaristas.
Mas quando se tem um sistema capitalista militarizado, os esfeitos são multiplicados. Tanto o elemento militarista do sistema quanto o capitalista criam bullying – e a sinergia cria um superbullying. Essa é uma das razões pelas quais os EUA são a mais poderosa e perigosa nação intimidadora.
A expressão “bullying do capital” – título do Capítulo 2 do livro – refere-se ao bullying inerente ao capitalismo, operado pelas elites capitalistas até mesmo em sociedades não-militarizadas. A classe capitalista – e em especial as corporações – ameaçam trabalhadores, consumidores, fornecedores, corporações e fornecedores rivais. Marx construiu toda a sua teoria da exploração capitalista como uma relação de ameaça entre a classe capitalista e a classe trabalhadora. Pensamos ser pertinente denominar esse tipo de bullying de “bullying do capital”.
Como a eleição de 2016, e especificamente Donald Trump, ilustram a ideia de “nação bully”?
Donald Trump encarna a imagem que a maioria das pessoas têm de bullying. Com seus insultos, ataques e mesmo ameaças violentas, ele parece uma criança – muito crescida e muito velha — praticando bullying. Mas, de novo, precisamos ser cuidadosos e não psicologizar excessivamente.
Há uma questão sociológico-política mais importante: por que ele é tão popular, ao menos em certos círculos? As pessoas dizem frequentemente que Hitler era louco, mas isso pede uma pergunta: como um lunático consegue milhões de seguidores e domina um dos países mais desenvolvidos do mundo? Embora sejam brutais e crueis, bulliers são frequentemente admirados.
Quando Trump tinha seu reality show – “O Aprendiz” –, as pessoas aplaudiam a cada vez que ele anunciava: “Você está demitido!”. Num tempo de ansiedades, quando os salários estão estagnados há décadas, quando homens brancos sentem seu status ameaçado pelas mulheres e negros, quando pessoas do Terceiro Mundo podem derrotar os Estados Unidos no Vietnã, Iraque e Afeganistão, alguns grupos podem sentir necessidade de um protetor que irá “tornar a América grande novamente”. Por “grande”, Trump quer dizer que os Estados Unidos devem sentir-se livres para ir a qualquer lugar que desejem, fazer qualquer coisa, em qualquer parte do mundo, impunemente. Ninguém pode ter permissão de bagunçar a América. É necessário um homem forte – um bullier.
Para proteger você, ele deve assegurar que ninguém pode desafiá-lo – ele deve ser capaz de destruir as ameaças. Quanto mais efetivamente ele ameaça, mais seguro você se sentirá. Você pode até mesmo sentir-se empoderado com seu brilho; você pode ser parte da casta dominante, do time vencedor. Pessoalmente, sua vida pode não ser lá grande coisa, mas você pode ao menos ser parte de alguma coisa grande – o bully mundial.
Você pode falar um pouco sobre bullying racial e de classe?
Capitalismo é bullying; é competição – vencedores e perdedores. A desigualdade de classe está no centro do capitalismo. Os fracos merecem sua sorte. Qulquer pessoa que pode ser intimidada merece sê-lo. Os pobres não têm resistência e disposição. Eles devem submeter-se ao poder daqueles que têm força para construir indústrias, fortunas e impérios. Os fortes estão destinados a governar os fracos. Para a economia prosperar, o 1% deve ser livre para intimidar os 99%.
O bullying racial não é essencial para o capitalismo militarizado, mas é útil. Os Estados Unidos começaram quando os europeus cruzaram o Atlântico para apossar-se das terras dos nativos americanos e aniquilá-los. Eles tinham liberdade de fazê-lo porque os nativos eram definidos pelos europeus como pessoas inferiores e não-civilizadas, incapazes de ser livres, ter sua própria cultura e sua própria terra, talvez incapazes até mesmo de viver. Os europeus foram escolhidos por uma força superior. Eles tinham o “Destino Manifesto” para intimidar, dominar e prevalecer.
No início, os europeus tentaram escravizar os nativos, ameaçá-los para fazer seu trabalho para eles, mas isso mostrou-se impraticável já que os nativos morriam ou escapavam para terras que conheciam melhor do que os europeus. Então os europeus voltaram-se para os africanos, os quais também eram definidos como menos-que-humanos, criaturas infantis, incapazes de cuidar de si mesmos, que necessitavam da civilização e proteção europeias. Eles tinham de ser dominados para seu próprio bem. Vinte milhões foram forçados a cruzar o Atlântico, com metade morrendo no caminho.
A escravidão negra pode ter tornado brancos pobres ainda mais pobres, aprofundado a divisão de classes e pode ter aumentado o bullying de classe, mas ao menos os brancos pobres poderiam sentir-se parte do bullying racial. Contudo, isso produziu um seleto grupo de muito poucos ricos, com mais riqueza vinda da escravidão do que da terra, colheitas, ferrovias ou fábricas. O bullying racial reforçou o bullying de classe. Ele dividiu os 99% e levou muitos dentre os 99% a identificar-se com o 1%, ao invés de questioná-lo.
Quando a escravidão acabou, o bullying racial contra os negros continuou na forma das leis de segregação Jim Crow, e mesmo quando elas acabaram, o bullying racial subesiste com evidências como brutalidade policial contra os negros. O bullying racial ajuda a construir a popularidade de gente como Donald Trump.
Muita gente provavelmente não pensa em bullying ambiental. Podem explicar o conceito?
Em nossa era de mudanças climáticas catastróficas, é difícil não pensar sobre “bullying ambiental”. Mas, embora todo capitalismo militarizado crie efeitos ambientais devastadores, não encontramos nenhum trabalho que use esse termo.

Na vida cotidiana, é claro, muitos sabem que determinadas pessoas ameaçam seus cachorros ou outros animais. As pessoas também se dão conta de que há uma cultura de bullying animal – como o negócio mortal de briga de cães. E a maioria das pessoas está também consciente de que o agronegócio – seja da Purdue, da Tyson ou da Cargill – transforma o bullying de animais em um mecanismo de lucro impiedoso.
Mas, embora seja bastante óbvio que os animais são hostilizados, pode parecer menos claro que plantas ou solo ou pedras possam sofrer bullying. O bullying implica em que a vítima pode experimentar alguma forma de consciência. Várias culturas indígenas acreditam que toda a vida e a natureza têm espírito ou consciência, mas as sociedades ocidentais construíram uma visão de não-senciência das plantas e de toda a natureza, permitindo que os humanos ataquem e destruam todas as formas de vida.

A ciência agora mostra que muitas plantas têm, de fato, notáveis formas de consciência e comunicação. Estudos recentes sobre as árvores mostram que elas se comunicam entrelaçando suas raízes, e de fato sobrevivem e prosperam construindo “comunidades de árvores”. Cientistas que estudam florestas falam agora de árvores “solitárias” que se tornam isoladas e morrem rapidamente.
No epílogo do livro, vocês debatem algumas novas formas de reduzir o bullying. Vocês podem descrever algumas destas ideias?
A visão psicologista convencional – a de que o bullying ésimplesmente uma forma de distúrbio pessoal ou doença mental – conduz à ideia segundo a qual a única solução é a terapia. Isso cria uma verdadeira indústria de aconselhamento escolar, num esforço que não freou a prática de bullying por crianças (na escola ou online).
Não chega a ser surpresa, já que a abordagem terapêutica não compreende a principal raiz do problema. Quando crianças ou adultos ameaçam, estão respondendo a estímulos de suas empresas e sua sociedade militarizada. Não estão “doentes”, desajustados ou “sub-socializados”. Ao contrário: estão muito bem ajustados; não precisam de terapia para se ajustar.
Debatemos a presença, nas escolas, de um significativo movimento “anti-bullying”, cheio de boas intenções mas fixado no foco psicologista. A prática continuará a crescer até que nos livremos do pensamento convencional e foquemos nas raízes do problema.
Significa usar a “imaginação sociológica” e perceber que muitos problemas pessoais – o bullying é um grande exemplo – são na verdade problemas sociais. A melhor maneira de reduzir o fenômeno é mudar nossa sociedade, reduzindo seu caráter militarista e caminhando para um sistema menos marcado pelas lógicas capitalistas. Países como a Suécia têm taxas muito mais baixas de bullying. Isso é porque não são militarizados: poderiam ser vistos como o que Bernie Sanders chama de “socialismo democrático”. Sua rede de benefícios sociais universal e seu forte movimento de trabalhadores reduzem as desigualdades de riqueza e poder, que são as causas sistêmicas do bullying.
Tal tipo de mudança, nos Estados Unidos, poderá ocorrer apenas quando os movimentos sociais contra o capitalismo militarizado e as hierarquias sociais baseadas em etnia, classe e gênero tornarem-se mais fortes. Estes movimentos estão disseminados, porém fragmentam-se. Precisam trabalhar juntos. Como o bullying é um problema sistêmico, é preciso que os movimentos busquem mudanças estruturais mais amplas para reduzir o fenômeno.
Alguns grupos anti-bullying – que atuam em grupos-alvo, como mulheres, negros, latinos, muçulmanos e membros das comunidades LGBTQ – começam a compreender a natureza social do problema. Porém, para se tornar efetivos, eles devem tornar seus movimentos universais. Significa somar forças para reduzir as hierarquias sociais e para criar uma alternativa ao capitalismo militarizado que assegure direitos e poderes iguais e repeito a todos. http://outraspalavras.net/capa/bullying-retrato-de-um-sistema-doente/