CÓDIGO ABERTO
> TELEJORNALISMO
A falácia do
jornalismo tipo ‘ele disse, ela disse’
Por Carlos Castilho em 15/05/2015
Entrevistas sem contexto confundem mais
do que esclarecem o público que assiste telejornais
Os telejornais, a principal fonte de
informação dos brasileiros, abusam cada vez mais da ferramenta editorial
conhecida pelo jargão norte-americano como “ele disse, ela disse”, baseada na
norma de ouvir os dois lados numa notícia. Pode tranquilizar redatores e
editores, mas o telespectador fica perdido no meio de um tiroteio informativo .
O
procedimento quase padrão nas reportagens de telejornais é partir de uma denúncia,
dado ou fato impactante para em seguida apresentar declarações do denunciante,
autor do dado ou protagonista do fato. Depois disso vem a declaração do lado
contrário, geralmente com justificativas, explicações burocráticas ou o recurso a
novos dados ou fatos, que aumentam ainda mais a confusão do leitor.
O
“ele disse, ela disse” tem uma consequência ainda mais nefasta porque consagra a
omissão dos repórteres e editores de investigar os fatos, eventos e dados
numéricos objeto da notícia ou reportagem. Basta um ser contra e outro a favor
para a tarefa jornalística ser considerada cumprida.
Tomemos
um caso ocorrido recentemente e que serve de paradigma para a esmagadora
maioria das notícias dos telejornais dos canais abertos. Fraude do leite.
Destaque para a prisão dos suspeitos, seguindo-se a declaração de policiais e
procuradores que explicam a fraude, os detalhes da captura, e fazem questão de
sempre mencionar os anos de prisão a que estão sujeitos os acusados. No final,
vêm as explicações dos advogados de defesa e dos suspeitos que dizem não ter
feito nada de ilegal. O telespectador que se vire para entender quem
tem e quem não tem razão.
É
necessário reconhecer que uma notícia importante e digna de ser incluída num
telejornal geralmente envolve questões complexas, cujo esclarecimento exige
tempo e trabalho, dois itens críticos no ritmo industrial de produção de um noticiário como o Jornal Nacional, por exemplo. As
questões operacionais servem de justificativa para jogar todo o peso do
esclarecimento sobre os entrevistados, já que o repórter não teve tempo para
checar os dados e situações citados pelas fontes ou personagens da notícia.
Até
os contínuos das redações sabem que cada protagonista procura justificar o seu
lado. Para o entrevistado não importa a verdade, mas sim a forma como ele será
visto e julgado pelo telespectador. A maioria dos políticos, funcionários
públicos importantes e empresários já passaram por sessões de “media training”
e sabem como escolher palavras e abordagens que não prejudiquem a sua imagem
pública. Nestas condições, uma notícia num telejornal quase sempre acaba se
transformando num desfile de performances, para aflição dos telespectadores
que sabem que o principal não está sendo dito, mas não conseguem identificar
onde está a verdade.
Se
formos analisar ao pé da letra, o “ele disse, ela disse” não é jornalismo. Principalmente
num contexto em que o público está cada vez mais necessitado de profissionais
que o ajudem a entender um mundo cada vez mais complexo. Nós, os jornalistas,
precisamos perceber que não é dessa maneira que manteremos a confiança de
leitores, ouvintes, telespectadores e internautas. Mais do que nunca temos a
obrigação de focar mais no contexto do que na espetacularidade das ações
policiais, no impacto das denúncias de procuradores e nas manobras de políticos
ou empresários.
As redações
precisam se preocupar
mais com o público do que com as fontes. Isto já foi dito várias vezes por
inúmeras pessoas, mas parece que ninguém escuta em redações automatizadas pela
rotina de produzir material noticioso que serve para separar um anúncio de
outro. Os executivos ainda estão convencidos de que a credibilidade do público
na imprensa é infinita, mas o que se nota no contato informal e direto com as
pessoas é um criticismo crescente em relação a jornais, revistas e telejornais.
Ler mais em : http://observatoriodaimprensa.com.br/
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